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Do Estreito de Ormuz ao Estreito de Quelimane

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento   Há crises que chegam devagar. Primeiro como notícia distante, depois como aumento…

Do Estreito de Ormuz ao Estreito de Quelimane

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento

 

Há crises que chegam devagar. Primeiro como notícia distante, depois como aumento discreto de preços e, por fim, como fila no posto de combustível. A tensão no Médio Oriente, envolvendo o Irão e os riscos sobre o Estreito de Ormuz, corredor por onde circula parte significativa do petróleo mundial, parecia, à primeira vista, assunto reservado às grandes potências. Mas, em economias dependentes da importação, como a moçambicana, a geopolítica transforma-se rapidamente em rotina.

Hoje, em Quelimane, o combustível deixou de ser apenas algo que move carros e motorizadas. Tornou-se motivo de preocupação diária, conversa constante nas filas e fonte de ansiedade para quem depende dele para trabalhar, circular ou simplesmente manter a rotina.

O recente aumento dos preços dos combustíveis em Moçambique, particularmente do diesel, agravou um ambiente já marcado pela incerteza. Quando o diesel sobe, o custo de vida sobe atrás.

Mas talvez o fenómeno mais visível esteja nos bairros periféricos da cidade. A escassez está a criar novos “patrões” em Quelimane: os vendedores de combustível em bidões. Em várias zonas, surgem pequenos pontos improvisados de venda informal, onde gasolina e diesel são comercializados muito acima dos preços oficiais.

O negócio cresce à medida que aumenta a procura e o desespero de quem precisa abastecer. A crise cria símbolos novos e também novas formas de ascensão económica rápida. Enquanto muitos passam horas em filas sem garantia de conseguir combustível, outros transformam a escassez em oportunidade. O produto desaparece dos postos formais e reaparece nos bairros, vendido em garrafas, bidões e recipientes improvisados, chegando, em muitos casos, a rondar os 250 meticais por litro.

E este detalhe desmonta parte da narrativa da escassez absoluta: o combustível não desaparece completamente; apenas muda de circuito. Sai do mercado formal e reaparece onde o preço é livre.

É aqui que o debate deixa de ser apenas económico. Porque toda crise prolongada cria intermediários, facilitadores e vencedores silenciosos. Em Quelimane, a economia informal do combustível começa a ganhar uma dimensão social própria. Há quem veja nisso apenas sobrevivência; outros enxergam um negócio altamente lucrativo alimentado pela fragilidade do abastecimento.

A economia clássica explica que choques externos reduzem a oferta e elevam os preços. Alfred Marshall descreveu isso há muito tempo. Mas a teoria económica pressupõe algum grau de equilíbrio no funcionamento do mercado algo que se torna difícil quando um bem essencial desaparece seletivamente dos canais formais e reaparece em circuitos paralelos com preços extremos.

É precisamente por isso que a Lei n.º 22/2009 (Lei de Defesa do Consumidor) protege os cidadãos contra práticas abusivas e assegura direitos básicos de acesso e informação. Da mesma forma, o Código Penal moçambicano (Lei n.º 35/2014) prevê enquadramento para práticas como especulação e açambarcamento de bens essenciais.

No fim, entre o Estreito de Ormuz e o Estreito de Quelimane, o combustível passou a representar mais do que mobilidade: representa acesso, vulnerabilidade e oportunidade. E talvez o sinal mais claro disso esteja nos bairros de Quelimane, onde a crise já começa a fabricar novos patrões, não com empresas ou fábricas, mas com bidões de combustível.

 

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Jornal Bons Sinais

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