O Município condena a escalada xenófoba da Operação Dudula e pede ao Governo de Moçambique que reforce a protecção consular dos cidadãos em risco
A escalada de violência xenófoba contra trabalhadores estrangeiros em cidades como Joanesburgo, Durban e na região de Gauteng, na África do Sul, levou o Conselho Autárquico de Quelimane a emitir um pronunciamento institucional de condenação. A mensagem invoca um argumento histórico que os governos moçambicanos raramente verbalizam em público: Moçambique pagou com sangue a solidariedade que prestou ao povo sul-africano durante a luta contra o apartheid.
Segundo o comunicado do presidente Manuel de Araújo, divulgado a 5 de Maio, marchas promovidas pelo movimento anti-imigração denominado Operação Dudula degeneraram em episódios de violência, destruição de bens e agressões físicas contra trabalhadores estrangeiros, incluindo um número significativo de moçambicanos. Relatos de cidadãos obrigados a abandonar as suas residências e a refugiar-se em locais isolados para escapar à violência documentam a dimensão humana da crise.
O texto recorre a um argumento histórico directo: “Moçambique foi um dos países que ofereceu abrigo, solidariedade e sacrifício durante a luta do povo sul-africano contra o regime do apartheid. Muitos moçambicanos pagaram com a sua vida o preço da solidariedade africana.” A autarquia considera que essa história merece ser honrada com respeito mútuo, não com violência.
Quelimane apresenta-se no texto como uma cidade com uma identidade histórica relevante para este debate: ribeirinha do rio dos Bons Sinais, a cidade é descrita como um espaço de encontro de culturas, línguas e tradições, o que, segundo o comunicado, permite sentir o sofrimento dos emigrantes perseguidos como algo próprio.
O Município apoia os apelos do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa para que os cidadãos da África do Sul não transformem preocupações socioeconómicas legítimas em violência. Ao mesmo tempo, apela ao Governo de Moçambique para que reforce o acompanhamento consular e diplomático dos compatriotas em risco, garantindo a sua segurança em conformidade com o direito internacional e com os tratados bilaterais em vigor.
O comunicado encerra com uma referência à filosofia Ubuntu: “Que a África do Sul, país que o mundo admirou pela sua capacidade de superar divisões históricas profundas, reencontre o espírito do ‘sou porque somos’ que a tornou um símbolo de reconciliação para toda a humanidade.”

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