Um trabalhador do Departamento de Planificação e Desenvolvimento Autárquico de Quelimane foi morto por uma multidão em Namacata. Outro funcionário da EMUSA foi gravemente agredido no bairro Sangariveira. A autarquia diz que não há qualquer evidência que sustente os boatos. A PRM deteve suspeitos.
Quelimane viveu dois dias de violência brutal alimentada por rumores sem fundamento. Um funcionário municipal está morto. Outro está hospitalizado com ferimentos graves. E a cidade ancora-se numa tensão que as autoridades locais tentam desesperadamente conter.
Na segunda-feira, 27 de Abril de 2026, um funcionário afecto ao Departamento de Planificação e Desenvolvimento Autárquico do Conselho Autárquico de Quelimane foi atacado e morto por populares na zona de Namacata, a cerca de 10 quilómetros do centro da cidade. A motivação alegada pelos agressores: os boatos que circulam há dias nas redes sociais e nos bairros da cidade sobre o suposto “desaparecimento de órgãos genitais”.
Menos de 24 horas depois, na manhã de terça-feira, 28 de Abril, um segundo funcionário municipal foi alvo de agressão violenta. Trata-se de Belcio Mahoho, trabalhador da EMUSA — Empresa Municipal de Saneamento —, que se encontrava em serviço no bairro Sangariveira, a realizar fiscalização de rotina de silos de depósito de resíduos sólidos situados nas imediações do mercado local. Foi atacado em pleno exercício das suas funções.
“Não há qualquer evidência que sustente os referidos boatos. O seu carácter é infundado e perigoso.”
— Conselho Autárquico de Quelimane, comunicado oficial de 28 de Abril de 2026
A Polícia da República de Moçambique (PRM) interveio no segundo incidente e deteve os indivíduos sinalizados como responsáveis pela propagação dos boatos que motivaram as agressões em Sangariveira. Os detidos encontram-se sob custódia policial.
Em nota oficial, o Conselho Autárquico de Quelimane afirmou que repudia “veementemente” os actos de violência e exortou os munícipes à “serenidade e sentido de responsabilidade”. Apelou ainda à denúncia às autoridades de qualquer indivíduo envolvido na propagação de desinformação.
O fenómeno não é novo em Moçambique. Rumores de “roubo de órgãos” ou de ataques sobrenaturais têm, ao longo dos anos, provocado linchamentos e mortes em várias províncias do país, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social, desconfiança institucional e acesso limitado à informação verificada. O que Quelimane vive agora insere-se nesse padrão, com consequências letais.
O nome do funcionário assassinado em Namacata foi confirmado pelo município como Elvino Correia Sarmento. Tinha família. Tinha um emprego. Morreu enquanto desempenhava a sua missão, vítima de uma mentira que correu mais rápido do que a verdade.

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