O filme do cineasta Assane Ramadane estreou no domingo, 26 de Abril, no Centro Cultural Bons Sinais, numa noite que reuniu poesia, música e autoridades provinciais. A sessão foi mais do que uma estreia: foi uma declaração de que a Zambézia tem criadores e que eles precisam de espaço, visibilidade e continuidade.
Há coisas que acontecem e passam. E há coisas que acontecem e ficam. A estreia de A Última Travessia, do cineasta zambeziano Assane Ramadane, no domingo à noite no Centro Cultural Bons Sinais (CCBS), em Quelimane, pertence à segunda categoria.
A sessão, resultado de uma iniciativa conjunta do CCBS e do Projecto Bons Sinais, tinha um propósito declarado: promover o cinema zambeziano. Não o cinema feito em Maputo sobre a Zambézia. O cinema feito aqui, por quem aqui vive, sobre histórias que aqui acontecem ou poderiam acontecer. Uma distinção que, no panorama cultural moçambicano, ainda não é banal.
O evento não se ficou pelo écran. A noite foi construída com várias camadas: actuações de poesia e canto abriram ou pontuaram a programação, e o palco foi partilhado com músicos da própria província — Edmilson Jr., Soraj, Helena Badina, SDY e Max da BMD. Cinco nomes, cinco trajectórias, todos da Zambézia. A mensagem era clara: este não é um evento sobre talento importado. É sobre o que já existe aqui.
“Esta iniciativa visava principalmente a promoção do cinema zambeziano.”
— Centro Cultural Bons Sinais / Projecto Bons Sinais
Entre o público e as presenças institucionais, marcaram lugar o Administrador do Distrito de Quelimane e a Directora Provincial de Cultura e Turismo. A presença de responsáveis sectoriais da cultura em eventos desta natureza tem um valor duplo: simbólico, porque confere reconhecimento; e pragmático, porque coloca os criadores no mesmo espaço que os decisores — o que, em contextos de escassez de apoio público às artes, não é irrelevante.
O que é A Última Travessia? Que história conta Assane Ramadane? Que escolhas técnicas e narrativas fazem deste filme um objecto digno de atenção? São perguntas que o TXOPELA procurará responder numa entrevista com o cineasta nas próximas edições. Por ora, o facto que importa registar é este: o filme existe, foi visto, e a Zambézia ganhou mais um argumento para recusar a ideia de que a criação cultural significativa só acontece na capital.
O cinema zambeziano está a escrever o seu próprio guião. A Última Travessia é um dos seus capítulos mais recentes. Que não seja o último.

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