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A Max Love e a ressurreição das ruas

Nota Editorial O texto que se segue, uma reflexão incisiva sobre o urbanismo e a alma da cidade de Quelimane, foi originalmente…

A Max Love e a ressurreição das ruas

Nota Editorial

O texto que se segue, uma reflexão incisiva sobre o urbanismo e a alma da cidade de Quelimane, foi originalmente publicado pelo jornalista Leonardo Duarte no seu perfil pessoal da rede social Facebook. Pela relevância do tema e pela qualidade da prosa, que espelha o quotidiano do “Pequeno Brasil”, o Bons Sinais reproduz a crónica na íntegra.

Por: Leonardo Duarte
Crónica de uma esperança que aprendeu a andar sobre pavimento
Há certas coisas que só acontecem quando os deuses se distraem. Por exemplo: nasci no bairro 3 de Fevereiro, onde o chão, antigamente, era nosso amigo. As crianças brincavam descalças e a rua ria connosco. A lama era visita rara, dessas que chegam com as chuvas e vão embora antes de nos cansarmos. Mas um dia a lama gostou de nós. Gostou tanto que resolveu ficar. E agora os meninos já não brincam na rua. Olham pelas janelas, os pés limpos de uma tristeza que não tem nome.
Mas o 3 de Fevereiro não está sozinho nessa tristeza.
Perguntem ao Primeiro de Maio, onde as valas já não escoam água, coleccionam memórias podres. Perguntem ao Coalane, onde os carros atolam como barcos em terra. Perguntem ao Samugue, ao Micajune, ao Sinacura, bairros inteiros onde a lama se tornou rainha e o buraco, presidente. Lá, as crianças também já não brincam. Lá, as mães suspiraram de tanto erguer os pés.
Poderíamos chorar. Mas não. Porque existe um lugar em Quelimane que nos prova que o paraíso é possível.
Esse lugar chama-se Avenida Max Love.
Ali, na zona do Torrone, onde antes os buracos tinham nome próprio, eis que o chão se vestiu de festa. Não é asfalto, reparem — asfalto é coisa de heróis cansados. É pavimento. Uma palavra bonita, que soa a promessa. Dizem que quem nos trouxe esse presente foi o Banco Mundial. O mesmo Banco que vê o mundo lá de cima, com olhos de números, resolveu descer e plantar uma flor de cimento bem no meio da lama. E a flor nasceu. E a flor chama-se Max Love, em memória daquele rapaz morto por uma bala mas que agora, vejam a ironia dos céus, ressuscita em cada metro quadrado liso.
Agora, por onde passa a Max Love, as pessoas sorriem. Dizem até que “Quelimane é só na Max Love”. E eu entendo: é como se aquela avenida fosse uma amostra grátis do paraíso. Uma prova de que a nossa cidade pode, sim, ser o Pequeno Brasil, não aquele dos telejornais, mas o Brasil das ruas que cantam, dos blocos de carnaval, das cidades que animam a gente. Quelimane pode brilhar. Basta querer.
Mas aqui me permitam uma pergunta, dessas que a gente faz baixinho, para não acordar os culpados:
Será que a Avenida só começou a merecer atenção quando trocou o nome de Maputo, essa cidade irmã, essa capital de todos nós, pelo nome de Max Love?
Porque vejamos: durante anos, quando se chamava Maputo, a rua era lama, buraco, esquecimento. Ninguém a via. Ninguém a queria. Era a Avenida Maputo, coitada, com nome de capital mas tratamento de aldeia. Aí chega Max Love. Morre o rapaz, nasce a homenagem. E de repente, milagre! o Banco Mundial aparece, o pavimento desce dos céus, os buracos fecham-se como olhos envergonhados.
Então era só mudar o nome? Era só baptizar com sangue de um jovem para que o chão resolvesse nascer? Se é assim, tenho uma proposta modesta: baptizemos o 3 de Fevereiro de “Max Love 2”. O Primeiro de Maio de “Max Love 3”. O Coalane, o Samugue, o Micajune de “Max Love 4, 5 e 6”. E talvez, quem sabe, o Banco Mundial nos ouça e a lama se converta em rua.
Mas não façamos isso por cinismo. Façamos porque a Max Love nos ensinou uma lição: Quelimane pode brilhar quando há vontade. Se uma avenida foi possível, por que não todo o resto? O nome pouco importa, o que importa é que alguém, algum dia, resolveu que ali valia a pena.
É claro que ainda temos os heróis a dormir em camas esburacadas. A Avenida 25 de Junho, tapete vermelho do aeroporto, parece um campo de minas depois da guerra. A Samora Machel, a Josina Machel, a Julius Nyerere, a Paulo Samuel Khankomba (essa que passa pela Casa da Cultura), a Liberdade na zona do Brandão, todas têm asfalto, sim, mas um asfalto que mais parece queijo roído por ratos gigantes. Mas isso não é lama. É buraco. Uma coisa mais civilizada, mas igualmente triste.
A lama, essa, ficou para os bairros. Para o 3 de Fevereiro, o Primeiro de Maio, o Coalane, o Samugue, o Santagua. Para todos esses lugares onde a cidade se esqueceu de ser cidade.
Mas eu não quero aqui fazer choradeira. Quero é continuar a estória.
A estória de que a Max Love foi a primeira semente. O Banco Mundial abriu a mão uma vez. E se abrir mais vezes? Se em vez de uma avenida, forem duas? Se em vez de duas, forem todas? Se o 3 de Fevereiro voltar a ter crianças na rua? Se o Primeiro de Maio trocar a lama por dança? Se o Coalane, o Samugue, o Micajune deixarem de ser sinónimo de atoleiro e passarem a ser sinónimo de alegria?
Isso, meus amigos, chama-se vontade. Vontade de todos, de quem governa, de quem financia, de quem vive. Porque Quelimane não é feita só de buracos e lama. Quelimane é feita de gente que ainda acredita que o chão pode ser amigo outra vez.
A Max Love é a prova. Ela é o dedo de Deus (ou do Banco Mundial, que às vezes é a mesma coisa) a apontar e dizer: “Vê? Dá para fazer. Agora continuem.”
E assim, no meu 3 de Fevereiro, no Primeiro de Maio, no Coalane, continuo a sonhar. Um dia destes, as crianças vão sair de casa em todos os bairros. Vão pisar um chão que não gruda nos pés. Vão rir. E eu vou lembrar que tudo começou numa avenida chamada Max Love, que antes se chamava Maputo, mas que só aprendeu a ser bonita quando ganhou um nome de gente.
Venham ver. O Pequeno Brasil está a nascer. E ele não cabe numa rua só, mas começa sempre por uma.
E as crianças do Namuinho, do Cololo, do Sampene, do Morropue, 3 de Fevereiro, do Primeiro de Maio, do Sangariveira, do Coalane, do Janeiro, do Samugue, do Micajune… essas ainda se lembram do que é brincar. Só falta o chão. Mas, com a lição da Max Love, até isso um dia terá nome.
Sobre o autor
Jornal Bons Sinais

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