Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
Em Quelimane, o aumento do número de pedintes às sextas-feiras tem-se tornado cada vez mais visível. Em determinados pontos da cidade, sobretudo nas proximidades de mesquitas e estabelecimentos comerciais, formam-se longas filas de pessoas em situação de mendicidade , uma imagem socialmente inquietante, sobretudo por se tratar, em grande parte, de idosos em condições de saúde fragilizadas. Muitos percorrem longas distâncias para ali chegar, vindos tanto de centros de acolhimento como das periferias urbanas, em busca de meios mínimos de sobrevivência.
Embora esta realidade seja claramente observável em Quelimane, estudos realizados em Moçambique indicam que este fenómeno segue padrões semelhantes aos registados noutras cidades do país. Na cidade da Beira, por exemplo, Lurdes João Jeque Vasco, no artigo Prática da mendicidade, fatores e implicações psicológicas em idosos: Caso de estudo na Província de Sofala – Beira (2022), demonstra que a mendicidade entre idosos resulta de uma combinação de fatores económicos, socioculturais, psicológicos e políticos. O estudo identifica, entre os principais determinantes, o baixo rendimento familiar (30,2%), a acusação de feitiçaria (23,2%) e o abandono pelos filhos (20,9%), evidenciando a complexidade e profundidade do fenómeno.
Esta evidência permite compreender que o que hoje se observa em Quelimane não é um fenómeno isolado, mas parte de uma tendência urbana mais ampla, marcada por vulnerabilidade social, fragilidade das redes familiares e limitações nos mecanismos de proteção social.
Mais inquietante ainda é o papel das crenças sociais. Em Moçambique, a acusação de feitiçaria continua a ser um mecanismo de exclusão, sobretudo contra mulheres idosas, frequentemente responsabilizadas por infortúnios familiares e comunitários. Como consequência, muitas são expulsas das suas casas e acabam nas ruas, onde a mendicidade se torna a única forma de sobrevivência.
Casos documentados reforçam esta realidade. Estudos indicam que o abandono familiar contribui diretamente para o aumento da mendicidade e da solidão entre idosos. Este processo rompe completamente as redes tradicionais de solidariedade que, historicamente, garantiam a proteção dos mais velhos.
Do ponto de vista sociológico, este fenómeno pode ser compreendido através da análise das relações sociais e das redes de apoio. Pierre Bourdieu destaca que a perda do capital social isto é, das relações familiares e comunitárias expõe os indivíduos a situações de marginalização. Em muitos casos, é exatamente essa ruptura que empurra os idosos para a rua.
Importa considerar também o contexto estrutural. Em Moçambique, cerca de 46% da população vive abaixo da linha de pobreza, e menos de 20% dos idosos têm acesso a proteção social formal, o que limita significativamente as suas condições de vida.
Ainda assim, a mendicidade não pode ser vista apenas como responsabilidade do Estado. Em muitos casos, ela nasce dentro das próprias famílias, quando vínculos de solidariedade são quebrados e os mais vulneráveis são excluídos. A rua torna-se, assim, o destino final de um processo que começa no espaço doméstico.
Dar esmola pode aliviar momentaneamente o sofrimento, mas não resolve o problema. Enfrentar a mendicidade exige mais: reconstrução de laços familiares, fortalecimento das redes comunitárias e uma resposta social integrada.
A mendicidade em Quelimane não é apenas um problema urbano é um espelho das dinâmicas sociais mais profundas que atravessam o país. E talvez a pergunta mais incómoda não seja por que existem pedintes, mas sim: que sociedade estamos a construir quando os nossos idosos deixam de ter lugar dentro das próprias famílias?
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