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Quelimane ensina ao mundo como vencer a ditadura do crude

Em Quelimane, o conceito de “crise energética” soa a um dialeto estrangeiro que ninguém faz questão de traduzir. Enquanto o resto de…

Quelimane ensina ao mundo como vencer a ditadura do crude

Em Quelimane, o conceito de “crise energética” soa a um dialeto estrangeiro que ninguém faz questão de traduzir. Enquanto o resto de Moçambique observa, com o coração nas mãos, o ponteiro do combustível beijar o vermelho, a capital da Zambézia pedala sobre o caos com a indiferença de quem já resolveu o futuro há décadas.

Enquanto o barril de Brent sobe nos ecrãs da Bloomberg e as sanções internacionais paralisam as refinarias, Quelimane assiste ao espetáculo de camarote. Nas bombas de combustível da cidade, onde noutras paragens se travam batalhas por dez litros de gasolina, reina uma paz quase monástica. Não é falta de procura; é excesso de alternativas.

“O combustível pode chegar a mil meticais o litro que a minha vida não para”, diz-nos um comerciante local, ajustando a carga na sua bicicleta robusta. “O meu depósito é o pequeno-almoço.”

Esta é a soberania real. Numa era de dependências tecnológicas e logísticas, a “Cidade dos Bons Sinais” deu um nó cego na globalização. A bicicleta deixou de ser o transporte do “remediado” para se tornar o símbolo de um status inabalável: a imunidade à crise.

 

O fenómeno de Quelimane opera uma inversão social fascinante. No resto do país, o carro é o totem do sucesso; aqui, a eficiência é a métrica da inteligência. Nas horas de ponta, o fluxo é hipnótico. É uma coreografia de milhares de quadros de aço que ignoram o preço do crude.

Vereadores e quadros técnicos partilham o mesmo trilho que os vendedores de peixe. A gravata não se opõe ao guiador. O que noutras cidades exige uma carrinha de caixa aberta, em Quelimane resolve-se com o equilíbrio de uma “chapa 100” a pedal. Enquanto as indústrias param por falta de logística fóssil, o comércio de Quelimane mantém o seu batimento cardíaco regular.

O que o mundo agora chama de “transição energética” por necessidade, Quelimane chama de “quarta-feira” por hábito. A lição que emana das margens do Rio dos Bons Sinais é clara e cortante: a verdadeira independência não se compra com divisas internacionais, mas cultiva-se na resiliência da cultura local.

Enquanto o mundo espera por um aperto de mão entre potências para saber se pode conduzir amanhã, o cidadão de Quelimane simplesmente sobe para o selim. O som das correntes bem oleadas é o manifesto de uma cidade que se recusa a ficar refém do mundo. Se o petróleo é o sangue das máquinas, a determinação é o combustível desta cidade. E esse, felizmente, não tem cotação na bolsa.

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Jornal Bons Sinais

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