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Zambézia, Estrutura Económica e o Desafio da Transformação Produtiva

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento     A província da Zambézia reafirma-se como uma das principais bases agrícolas…

Zambézia, Estrutura Económica e o Desafio da Transformação Produtiva

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento

 

 

A província da Zambézia reafirma-se como uma das principais bases agrícolas de Moçambique. Dados recentes indicam que, apenas em 2024, foram comercializadas mais de 219 900 toneladas de produtos agrícolas diversos, representando um crescimento aproximado de 55% em relação ao ano anterior. Entre as culturas com maior expressão destacam-se o milho, com cerca de 91 610 toneladas, e a soja, com aproximadamente 17 355 toneladas.

Em distritos como Alto Molócuè, a comercialização destas culturas gerou receitas superiores a 5 milhões de meticais, demonstrando que existe capacidade produtiva e geração de rendimento rural. À primeira vista, estes números sugerem dinamismo económico e expansão do sector primário.

No entanto, a análise estrutural exige ir além do volume físico produzido. A maior parte dessa produção continua a ser comercializada em estado primário, com limitada transformação industrial dentro da própria província. Isto significa que o valor agregado permanece reduzido e que o potencial multiplicador da actividade agrícola não é plenamente explorado.

Sob a perspectiva de Albert Hirschman, o desenvolvimento sustentável depende da criação de encadeamentos produtivos. Quando o milho, a soja ou outras culturas não alimentam cadeias locais de processamento, embalagem, transporte estruturado e distribuição formal, o impacto económico fica concentrado no nível primário e perde-se a oportunidade de dinamizar sectores secundários e terciários.

A leitura de John Maynard Keynes reforça esta análise. O crescimento depende do efeito multiplicador do investimento e da circulação eficiente da renda. Se a renda agrícola não se transforma em investimento industrial local, o multiplicador permanece frágil.

Este cenário torna-se ainda mais evidente quando se observa a dinâmica económica nos principais centros urbanos da província, como Quelimane. Em muitos casos, a circulação monetária urbana é fortemente sustentada por rendimentos do funcionalismo público, salários do Estado, pensões e aposentadorias. Esses fluxos garantem estabilidade de consumo no comércio e nos serviços, funcionando como amortecedores económicos em períodos de baixa actividade produtiva.

Contudo, quando os rendimentos públicos se tornam os principais dinamizadores da economia urbana, a estrutura económica revela dependência excessiva de transferências estatais. O sector privado tende a permanecer pouco robusto, a agroindústria evolui lentamente e os efeitos da produção agrícola provincial não se traduzem plenamente em transformação industrial urbana.

Segundo Joseph Schumpeter, o desenvolvimento requer inovação e reorganização estrutural. Economias que apenas expandem produção primária ou mantêm circulação baseada em salários públicos não alcançam transformação qualitativa significativa.

Do ponto de vista institucional, Douglass North destaca que o crescimento depende de incentivos adequados ao investimento produtivo. Sem ambiente favorável à agroindústria, ao crédito produtivo e à formalização empresarial, o potencial agrícola não se converte automaticamente em desenvolvimento urbano sustentável.

Assim, a Zambézia apresenta um paradoxo económico: volumes agrícolas crescentes e capacidade produtiva considerável coexistem com uma estrutura de baixo valor agregado e forte centralidade dos rendimentos públicos na dinamização dos centros urbanos.

Produzir mais é um sinal positivo. Transformar melhor é o verdadeiro desafio. Sem diversificação produtiva e fortalecimento das cadeias de valor, o crescimento continuará predominantemente extensivo. O salto qualitativo depende de transformar a base agrícola em agroindústria, encadear sectores e reduzir a dependência da economia urbana em relação aos rendimentos estatais como principal motor de circulação monetária.

Para concluir, importa enfatizar que o futuro económico da Província da Zambézia não será determinado apenas pelo volume físico da produção, mas essencialmente pela sua capacidade de transformação estrutural.

O verdadeiro desafio reside em converter toneladas em valor agregado, isto é, transitar de uma economia primária, centrada na venda de commodities agrícolas em estado bruto, para um modelo produtivo assente na agroindústria, na transformação local e na diversificação das cadeias de valor.

Da mesma forma, será decisivo transformar produção primária em indústria, promovendo investimento em processamento, armazenamento, logística e inovação tecnológica, de modo a reter rendimento no território e fortalecer o tecido empresarial provincial.

Por fim, a consolidação de um mercado interno dinâmico exigirá a conversão de uma mera estabilidade de consumo muitas vezes sustentada por salários do sector público em crescimento estrutural sustentável, ancorado na produtividade, geração de emprego formal e ampliação da base tributária.

 

Por uma Zambézia que se constrói…

 

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Jornal Bons Sinais

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