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O Sacrilégio no Tacho

Régulo de Inhassunge Há pratos que são, em si mesmos, uma fundação. A galinha à zambeziana não se senta à mesa para ser…

O Sacrilégio no Tacho
Régulo de Inhassunge

Há pratos que são, em si mesmos, uma fundação. A galinha à zambeziana não se senta à mesa para ser consumida; ela senta-se para ditar as leis de um reino que não se encontra nos mapas, mas no paladar de quem nasceu sob a sombra dos palmares de Quelimane.

Não estamos a falar de culinária. Estamos a falar de uma genealogia de fumo e coco. Quem olha para uma peça de frango dourada sobre o carvão e vê apenas “proteína”, é cego para a ancestralidade. Ali, naquele brilho da gordura que escorre, está o suor de gerações que domesticaram o fogo e o limão.

O erro dos modernos — esses que carregam pressa nos bolsos e desrespeito no avental — é achar que a tradição é um barro mole que qualquer mão ignorante pode moldar. Tentam “elevar” a Zambézia com artifícios de plástico, com temperos que nunca viram o sol do Índico, com nomes estrangeiros para conceitos que já eram perfeitos no silêncio dos quintais.

Quando descaracterizam a galinha à zambeziana, cometem um filicídio cultural. Estão a matar o filho de uma terra para vender o cadáver num prato de porcelana cara.

“A tradição não é um museu de cinzas, mas a preservação do fogo.”

Mas o fogo da Zambézia exige o carvão certo, a paciência do piri-piri e a autoridade do coco. Mudar a estrutura deste prato não é inovação; é um apagamento. É dizer que o saber das nossas avós não basta, que precisa de um verniz de “modernidade” para ter valor.

A verdadeira galinha à zambeziana é brava. Ela tem a textura da resistência. Ela não pede desculpas por ser simples, porque a sua simplicidade é a sua soberania. A variação é humana — um pouco mais de sal aqui, um toque de acidez ali — mas a essência é divina. E o que é divino não se negoceia em programas de televisão ou em posts efêmeros de redes sociais.

A comunicação social tem o dever do rigor, não da espetacularização do erro. Ensinar mal é uma forma de colonizar o futuro. Se Quelimane é o berço, que se respeite o embalo.

Não se serve identidade com improviso. Não se come a história com talheres de dúvida. A galinha à zambeziana é o nosso solo. E quem pisa o solo sem pedir licença, acaba por caminhar no vazio.

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Jornal Bons Sinais

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