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O papel da cultura e do turismo no crescimento local: um olhar sobre as praias da Zambézia

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento     Apesar de toda a beleza natural e cultura vibrante, a província…

O papel da cultura e do turismo no crescimento local: um olhar sobre as praias da Zambézia

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento

 

 

Apesar de toda a beleza natural e cultura vibrante, a província da Zambézia parece hesitar em transformar o seu litoral em um verdadeiro motor de crescimento económico. Enquanto destinos costeiros em outras partes do mundo atraem milhões de visitantes e receitas turísticas robustas, as praias de Zalala e Pebane continuam a oscilar entre picos de atividade e longos períodos de inércia.

Ao olhar para os números nacionais, fica claro que o turismo tem sido um sector crescente, mesmo num contexto económico global desafiante. Em 2021, o turismo contribuiu com cerca de 2,46 % do Produto Interno Bruto (PIB) moçambicano; em 2022 e 2023 essa percentagem praticamente duplicou para cerca de 4 % do PIB, representando receitas da ordem dos 207-221 milhões de dólares em 2024, mesmo com leve queda nas chegadas de turistas naquele ano.

O sector também continua a atrair investimentos estrangeiros, com mais de US$ 1,1 mil milhões captados entre 2018 e 2022, destacando a confiança de investidores e a consciência de que o turismo pode ser um pilar de crescimento se bem estruturado.

E em termos de turistas, o país registou mais de um milhão de visitantes em 2024, mantendo uma presença internacional que representa potencial significativo de consumo local em serviços, hospedagem, restaurantes e comércio.

Estes indicadores refletem que o turismo não é marginal na economia nacional e, por consequência, deveriam ser ainda mais relevantes para as economias regionais. O que se observa, porém, é que muitas regiões continuam sem uma estratégia articulada para transformar esse potencial em impacto sustentável sobre o crescimento da base tributária local, emprego e inclusão produtiva.

É aqui que entram as praias da Zambézia. A Praia de Zalala, por exemplo, ganha vida sobretudo durante o seu festival anual: durante esses dias, há circulação de dinheiro, maior ocupação de quartos, e micro-empresas informais florescem. Mas após o encerramento do evento, quase tudo retorna ao silêncio. A ausência de um calendário permanente de eventos culturais e uma oferta turística organizada reduz drasticamente o potencial de receitas contínuas.

Ainda mais enfraquecida encontra-se a Praia de Pebane. Com paisagens naturais que poderiam ser exploradas de forma sustentável desde turismo ecológico até experiências culturais ligadas à pesca artesanal, a praia permanece praticamente inerte em termos de atracção turística. Os dados nacionais mostram que o sector turístico tem capacidade de gerar receitas e emprego; o desafio, no entanto, está em materializar isso localmente, especialmente onde a infraestrutura e a promoção ainda são fracas.

Quando olhamos para o impacto do turismo sobre o emprego, estudos e análises internacionais apontam consistentemente que o sector é intensivo em mão-de-obra e apto a gerar oportunidades inclusivas. Isso é crucial num país com elevado desemprego juvenil e poucas alternativas económicas fora das zonas urbanas. Apesar de ainda não existirem estatísticas provinciais detalhadas sobre emprego turístico para a Zambézia, a tendência macro sugere um aumento do emprego no sector ao longo do tempo, com oportunidades diretas e indiretas para jovens.

O problema não é a falta de potencial natural ou cultural; é a ausência de decisões estratégicas que convertam esse potencial em desenvolvimento local sustentável. O turismo, quando mal planeado, torna-se sazonal, efémero e incapaz de gerar impacto estrutural, tal como se observa atualmente em Zalala e Pebane. Em contraste, destinos turísticos bem organizados em outras partes do continente mostram que um planeamento integrado pode ampliar receitas fiscais, estimular formalização de empresas e criar emprego permanente.

Ao integrar indicadores económicos reais como a contribuição crescente do turismo para o PIB nacional, o volume de receitas geradas e os números de visitantes fica evidente que Moçambique conhece uma expansão no sector em termos agregados. Mas a Zambézia ainda não colheu os frutos dessa expansão de forma consistente. As praias da região não podem mais ser vistas como fenómenos de picos isolados de procura; elas exigem a promoção contínua e investimentos em infraestrutura turística, cultura e formação profissional se realmente forem alavancas de crescimento local.

Em última análise, negar a evidência dos números e adiar a transformação do potencial turístico em benefícios reais é continuar um ciclo de oportunidades perdidas. A Zambézia tem recursos naturais e culturais que outros destinos invejam, mas a questão continua sendo a mesma: Pode uma economia turística sobreviver baseada em eventos pontuais e ausência de operação contínua?

 

Por uma Zambézia que se constrói…

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Jornal Bons Sinais

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