Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
Em Quelimane, o crescimento do negócio de ferro velho deixou de ser discreto. O que antes era uma actividade pontual tornou-se uma presença constante nos bairros periféricos e nas principais artérias da cidade. Crianças, jovens e adultos percorrem diariamente as ruas à procura de metais para vender, num movimento que já faz parte da rotina urbana.
À primeira vista, trata-se de uma alternativa de rendimento num contexto de dificuldades económicas. No entanto, o ritmo acelerado com que este mercado está a crescer começa a levantar sinais de alerta.
No mercado internacional, a sucata metálica tem valor real e significativo. O aço reciclado (ferro velho processado) está a ser negociado à volta de 379 dólares por tonelada em 2026, segundo dados da Trading Economics (2026). Já o minério de ferro, base da indústria ronda os 100 a 105 dólares por tonelada, de acordo com a mesma fonte (Trading Economics, 2026). Em alguns mercados europeus, a sucata de ferro chega a cerca de 160 euros por tonelada, podendo variar conforme a qualidade (Metaloop, 2026). Estes dados mostram que não se trata de um negócio marginal, mas de um sector com peso económico real.
No entanto, a realidade local apresenta outra face. Em Quelimane, o negócio é, em grande medida, dominado por compradores de nacionalidade bangladeshiana e chinesa, que controlam os pontos de aquisição e influenciam directamente os preços praticados.
A ausência de critérios claros na definição de preços, a falta de transparência nas transacções e a informalidade generalizada tornam o mercado vulnerável a práticas injustas. Quem recolhe e vende sucata, muitas vezes em situação de necessidade, acaba por aceitar valores impostos, sem margem de negociação.
Ao mesmo tempo, surgem preocupações relacionadas com o aumento de vandalismo, incluindo a remoção de cabos eléctricos, cantoneiras e outros componentes de infraestruturas públicas e privadas, que acabam por alimentar este circuito.
Outro aspecto preocupante é a falta de condições básicas de higiene e segurança no manuseio de sucata. Muitos dos envolvidos nesta actividade trabalham sem qualquer protecção, expostos a riscos físicos e a materiais potencialmente nocivos à saúde.
Este fenómeno já tem precedentes no país. Em Maputo e Matola, o sector está mais estruturado e ligado à indústria, embora persistam casos de roubo de materiais. Em Cabo Delgado, a sucata tem contribuído para a limpeza e reaproveitamento de detritos pós-conflito, mas continua inserida num circuito informal com desafios semelhantes.
Mais do que condenar ou ignorar, importa reconhecer que o ferro velho está a crescer rapidamente e a transformar dinâmicas sociais, económicas e urbanas na cidade. E como todo fenómeno em expansão, exige atenção, reflexão e acompanhamento antes que os seus impactos se tornem mais difíceis de gerir.
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