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EDITORIAL: O jornal que nunca saiu da cidade

EDITORIAL  ·  NOVA FASE   O jornal que nunca saiu da cidade Doze anos de Quelimane impressos em papel, guardados em memória.…

EDITORIAL: O jornal que nunca saiu da cidade

EDITORIAL  ·  NOVA FASE

 

O jornal que nunca saiu da cidade

Doze anos de Quelimane impressos em papel, guardados em memória. Agora, o Bons Sinais volta — e desta vez fica.

 

Havia uma vitrine. Não era grande, não tinha iluminação especial, não piscava nem chamava atenção com alarido. Mas havia quem parasse. Havia quem inclinasse levemente o pescoço, ajustasse o olhar, e ficasse ali um momento — a ler. Esse momento, repetido ao longo de doze anos, em postos administrativos e corredores do município, em paredes que o sol de Quelimane desbotava com paciência, foi o primeiro capítulo da história deste jornal.

 

O Bons Sinais nasceu em 2013. Nasceu com registo, com missão, com o

peso institucional do Conselho Municipal de Quelimane a dar-lhe forma e direcção. Era gratuito — o que, neste país, neste contexto, não é detalhe menor. Era físico. Era visível. E durante mais de uma década, foi, à sua maneira discreta e regular, um arquivo vivo da cidade: as decisões, os programas, as cerimónias, os projectos que iam sendo anunciados edição após edição, número após número, até ao 287 e além.

Não era um jornal para fazer barulho. Era um jornal para ficar.

E ficou. Por mais de uma década, ficou.

O que a vitrine guardava

Quem viveu Quelimane nestes anos sabe do que se fala. Sabe o cheiro do papel impresso numa manhã de calor. Sabe o gesto de parar e ler enquanto a cidade ainda estava a acordar. O Bons Sinais fazia parte desse quotidiano com a naturalidade das coisas que pertencem a um lugar — como o rio que se avista ao fundo da rua, como o mercado que começa antes de o sol subir, como os nomes que toda a gente conhece sem precisar de os apresentar.

Havia naquele modelo algo de essencial: a informação chegava às pessoas, não esperava que as pessoas a fossem buscar. Estava colada à parede. Estava lá. E isso, numa cidade de mais de trezentos mil habitantes que nunca teve tantos órgãos de comunicação quantos merecia, tinha um valor que só se percebe agora, quando se olha para trás.

A equipa que tornou isso possível — redactores, fotógrafos, técnicos, os que escreviam e os que garantiam que cada edição chegava onde devia chegar — merece ser recordada com gratidão. Manter um jornal gratuito, regular e funcional durante doze anos em Moçambique não é rotina. É, sem exagero, uma forma de resistência.

Uma mudança, não um adeus

Mas os tempos mudaram. O leitor mudou. A cidade mudou. E seria desonesto fingir que o modelo da vitrine ainda responde à velocidade com que Quelimane vive hoje. As pessoas querem saber o que aconteceu esta manhã — não na próxima edição. Querem ler no telemóvel enquanto esperam o chapa, enquanto tomam o chá, enquanto os filhos dormem.

É nesse espírito que o Bons Sinais abre um novo capítulo.

A partir de agora, o jornal passa a ser editado pela Afro Media Company — o maior grupo privado de comunicação da zona centro, com experiência, alcance e a capacidade técnica que este projecto precisa para crescer. Uma parceria que não apaga o passado, mas que lhe acrescenta fôlego. Que transforma um boletim querido num jornal com ambição real.

E ao mesmo tempo, abandona o papel e o PDF para assumir definitivamente o digital: no website e na aplicação móvel, em www.bonssinais.com — sempre disponível, sempre actualizado, sempre em Quelimane.

O jornal que estava nas paredes passa a estar nos bolsos. Mas a cidade que cobre continua a ser a mesma.

O nome, o rio, o destino

Há uma razão para o nome nunca ter mudado — e nunca dever mudar.

“Bons Sinais” vem de longe. Vem do momento em que Vasco da Gama, navegando rumo à Índia, avistou o rio que hoje chamamos Quá-Qua e percebeu que estava perto do seu destino. Chamou-lhe Rio dos Bons Sinais. Era um sinal de orientação. De chegada. De que o caminho estava certo.

Este jornal herdou esse simbolismo — e tem a obrigação de o honrar. Ser um indicador de rumo. Ser um ponto de referência. Ser o sítio onde Quelimane se reconhece, se lê, se vê reflectida com rigor e com afecto.

Não um jornal que paira sobre a cidade de fora. Um jornal que caminha dentro dela — pela Rua Correia de Brito, pelo bairro Coalane, pelo cais de manhã cedo, pelos recantos onde a história desta terra se foi fazendo em silêncio.

O compromisso que fica escrito

O novo Bons Sinais é, antes de tudo, um jornal dos munícipes. Para os munícipes. Nascido desta cidade singular — com mais de trezentos mil habitantes, com uma história que atravessa séculos, com uma cultura que mistura línguas e sabores e ritmos de um jeito que não se copia em nenhum outro lugar do mundo.

Vai dar voz ao que de melhor acontece nesta urbe. Vai registar o que deve ser registado. Vai estar presente nas ocasiões grandes e nas pequenas — porque são as pequenas que mais definem uma cidade.

Será rápido, mas não leviano. Será próximo, mas não complacente. Será o jornal diário que Quelimane merece — e que, honestamente, já devia ter há muito tempo.

Doze anos de história não se apagam. Transformam-se em fundação.

E sobre essa fundação, o Bons Sinais recomeça.

Bem-vindos à nova casa. É a mesma cidade.

Quelimane, Março de 2026
Zito do Rosario Ossumane
Director Geral
Afro Media Company

Bons Sinais  ·  Editorial de abertura  ·  Quelimane, Março de 2026

Sobre o autor
Zito Ossumane

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